17/01/ 2017
A arte enquanto mediadora cultural existe fora dos museus e galerias, onde diversas pontes fazem a conexão entre artista e público.
O mundo dos negócios também participa deste universo, mas, por razões misteriosas, gosta de ficar em segredo.
A arte contemporânea, no Brasil segue uma tendência internacional, muitos artistas visuais contemporâneos utilizam o Marketing artístico, assim como fazem os esportistas, atores e atrizes, costureiros, chefs e outros criadores.
Qual seria o problema para um artista contemporâneo ser patrocinado por uma rede de hamburgueres?
Isso parece ser tão comum, mas o sistema da Arte Contemporânea deixa isso nas sombras da ignorância e tenta dar um ar mágico, misterioso, como se estive fora do mundo do DINHEIRO.
No Brasil, terra do compadrio, dos segredos, da corrupção bem amanteigada e de poucas oportunidades, um grupo seleto, faz o papel do Bruxo das trevas Lord Voldemort, que pretende tornar-se imortal, subjugando as pessoas não-mágicas e destruindo todos que estão que cruzam seu caminho, especialmente Harry Potter.
Internacionalmente é possível avaliar o quanto a Arte Contemporânea é business, onde contratos de cooperação com marcas líderes internacionais como Starbucks, DreamWorks, Mattel, dentre outras, alavancar a imagem e os trabalhos dos artistas que participam de eventos promocionais de seus produtos. Pinturas, desenhos, esculturas, fotografias, imagens do artista e principalmente participação em performances e intervenções, artistas como: MICHAEL SAILSTORFER [2] e LEV KHESIN[3] fecharam contratos de cooperação com a empresa COS da indústria da moda[4].
O nicho de mercado das artes visuais é explorado por agências como a UNITED TALENT AGENCY (UTA)[5] , conhecida de todos no ramo da música e do cinema através de clientes como: Jonny Depp, Céline Dion, Gun N’ Roses ou Miley Cyrus. AO (UTA) tem contrato com o artista ativista chinês AI WEIWEI[6], cujo rosto já é uma logomarca; MAURIZIO CATTELAN[7] e o artista multimeios JULIAN SCHNABEL [8].
Podemos fazer uma conexão entre o artista e ativista chinês conhecido por seu trabalho desafiando o regime chinês AI WEIWEI[5] e o enigmático Andy Warhol, 50 anos a frente de seu tempo.
A UNITED TALENT AGENCY (UTA)[3] não é a primeira agência a trabalhar com artistas visuais, outras agências como: “CREATIVE ART AGENCY”[9] representa o artista multimeios THAO NGUYEN [10] e o arquiteto REM KOOLHAAS [11] e a agencia WILLIAM MORRIS ENDEAVOR [12] representa os artistas TOM SACHS[11] com instalações e TAKASHI MURAKAMI[13].
Recomendo a leitura - O mercado de arte está embriagado pelo dinheiro - Adriano de Aquino - junho 14, 2007
http://adrianodeaquino.blogspot.com.br/2007/06/orgia-esttica.html
Não deixa de saltar aos olhos a existência de algo em comum em termo de gosto e interesses de linguagens imateriais, focados não apenas em fazer um objeto de arte, mas compartilham também uma concepção completamente nova do que é ser artista.
Através da literatura, filosofia e da vida cotidiana eles observam as questões ambíguas nas convenções sociais do mundo contemporâneo, de forma engajada e imaterial, com instalações, vídeos, performances, interferências que retratam conceitos históricos, políticos e contemporâneos. Em última análise, compartilham suas contemplações solitárias e particulares da condição humana na sociedade atual, imbricados com o entretenimento e ao business.
A arte radical e efêmera, com sua imaterialidade, contribui para a autopropaganda institucional, o artista acaba virando marca de si mesmo, cumprindo assim o circuito de valorização através do marketing.
“E como tem o poder de valorizar algo que a ela se associe, há tempos a arte é utilizada pela comunicação empresarial para a construção dos significados de uma outra marca. Mas o que se passa também é que o próprio mundo da arte se constitui na mesma estratégia.
O infindável número de patrocínios e parcerias comerciais funciona, em verdade, como uma via de mão dupla. Não é somente a arte que empresta seu prestígio à mercadoria vulgar: o que se estabelece, na agressiva competição de criação do público consumidor, é uma relação de reciprocidade.” [14]
Tal como o dinheiro, a arte contemporânea depende de atores e de convenções socioeconômicas objetivamente atuantes, estabelecidas pelas relações comerciais e sociais.
Este tipo de relação entre arte e negócios constitui o novo caminho das artes visuais, impondo uma relação quantitativa, avaliada pelos negócios que pode gerar e pelo sucesso. Difícil é acreditar que esta relação contribuirá para a transformação da sociedade. Business é business , e para este a política e a transformação social é muito mais uma questão de marketing. O fato é que o engajamento da arte, a serviço do marketing, não é capaz de captar à diversidade, as origens dos problemas e a complexidade da sociedade vigente e, é certo que os desafios da realidade material e as limitações da objetividade dos negócios, sempre obscurecerão a visão do mundo.
Uma abordagem artística cultural não pode ser excludente e deve vislumbrar a transição para um novo mundo juntamente com o público, e não somente com o mercado.
O novo só é capaz de surgir dentro da própria arte, só assim poderá ir além dela, fora das galerias, museus ou agências - livre.
Apesar deste mundo de “celebridades nas artes visuais” não representar um novo mundo, deve ser levado em conta: afinal a arte também é negócio. As artes visuais sempre fizeram boas parcerias com o poder, participando do sistema; sendo comprada vendida, ou ainda, como entretenimento - um ponto de apoio para atrair o público e lhe dar visibilidade.
Alguns artistas envolvidos no sistema, procuram caminhos para fora da subserviência, acrescentando um saber próprio, através da organização de um pensamento, uma crítica ou ainda uma provocação.
As artes visuais contemporâneas estão cada vez mais atreladas aos mesmos mecanismos socioeconômicos de valoração (financeira).
Este mecanismo, assim como no dinheiro, os países centrais são fundamentais, e o marketing finaliza e instrumentaliza a engenharia de acumulação do capital. O sistema incluir museus, galerias e agências na criação e valorização simbólica do objeto de arte e do artista.
Para algo tenha valor, potência, é necessário criar significados a partir do próprio objeto, e na validação são os especialistas que determinarão o que é arte ou não; já que a arte contemporânea opera com a ficção gerenciada da reputação para a construção de uma imagem. Os museus e fundações colaboram com na construção simbólica, alargando o seu papel educativo e de preservação cultural, para serem lugar de encontro de amigos, tomar um café, ou até fazer negócios e se promover.
As agências, como promotoras dos artistas e das obras, não vendem pinturas, esculturas, instalações, interferências, performances ou qualquer outro objeto relacionado, quem negocia a obra, continua sendo a galeria. As agências geram negócios de cooperação, fazem acordos que potencializam imagens, através de vídeos, participações de artistas ou obras em campanhas, ou fecham acordos de colaborações artísticas em design de objetos, inserções de quadros, esculturas, performances ou mesmo participação em festas e eventos sociais que resultarão de forma indireta na valorização do artista.
Apesar das injunções de ações de marketing na arte contemporânea serem bastante comuns, estas colaborações ainda são vistas com olhos enviezados pelo mundo da arte.
Consolidar um artista, seja através do seu trabalho ou da ação de marketing promovido pelas agências, podem ser um estímulo na produção de um artista.
As colaborações, sem dúvida, podem render maior independência financeira para o artista e possibilitar a realização de mais projetos fora das galerias e museus, sem prejudicar sua integridade como artistas; entretanto, pode acontecer algum tipo de desvio.
O artista pode:
Perder a sua liberdade e reduzir seu papel de oposição ao ficar dependente de seu patrocinador, ceder aos interesses de explorações estéticas como as de designer de objetos para uma empresa com resultados muitas vezes medíocres.
Esses medos são justificados, pois dizem respeito à linguagem do artista, um domínio sem regras definidas e sem leis, onde o não permitido é aceito.
Porém esta liberdade tem um preço, ela só é arte se não trair este mundo ao se tornar serva do Mercado.
Todo este esquema de colaboração e divulgação no negócio da arte através de agencias, no caso do Brasil é difícil de ser acompanhado e avaliado.
No Brasil o papel das agencias é exercido pelas galerias de arte. A construção da carreira dos jovens artistas depende da atuação das galerias, são elas que fazem circular os objetos artísticos e se empenham na sua legitimação e valorização artística e econômica da obra.
“(...) damos sempre o suporte das feiras [aos artistas]. Tentamos participar do máximo de feiras possível, porque sabemos que elas são um meeting point de pessoas (...), desde o pesquisador até quem vai comprar mesmo. Trabalhamos a assessoria de imprensa junto com eles, trabalhamos a imagem deles, como vão aparecer, como querem aparecer, como vai ser a estratégia disso (...) Hoje, uma galeria agencia o artista. Ela banca com o artista a produção da obra, leva artistas para as principais feiras internacionais, lida com curadores e críticos, para que estejam nas principais bienais e museus do mundo. Todo um trabalho se inicia antes e vai para além da venda.” [16]
“André Parente, artista entrevistado por Cláudia Tavares e Mônica Mansur para o livro Ser artista: entrevistas (2013), é um desses críticos, que afirma: Acho o sistema de arte no Brasil problemático na medida em que, cada vez mais, o valor de uma obra é determinado pela visibilidade criada pelo mercado, em particular as galerias.
A partir dos anos 1990 sobretudo, o mercado se tornou um campo de forças quase inelutável: mesmo quem não está em uma galeria sofre as suas pressões.
É que a galeria consegue conectar todas as pontas do sistema de arte, colocando o artista, o curador, o colecionador e a mídia trabalhando juntos. (...)
As grandes instituições, por sua vez, já não conseguem mais fazer isto acontecer, apenas muito raramente. (...)
Mesmo os críticos mais puristas se tornaram curadores e estão a serviço do negócio da arte, embora façam tudo para manter, no que diz respeito às ideias, a aposta de que a obra deva possuir uma verdade interna que não deixe se contaminar pelo mundo ao seu redor, quando a única verdade hoje é a da mercadoria. “ [17]
A fronteira entre os artistas renomados e os não renomados dependerá cada vez mais das ações dos “agentes sociais da elite econômica” que regulam a circulação de obras de arte contemporânea e que constroem a carreira dos artistas, que por sua vez espelham uma relação de forças entre as demandas do mercado e os especialistas. Estes últimos são os que influenciam de forma direta ou indireta a carreira dos artistas, pois orientam a composição de coleções, sejam públicas ou privadas. Uma imposição no campo artístico contemporâneo, sem regras estéticas que determinem se uma obra é ou não é arte.
“Assim, os valores de pinturas e esculturas contemporâneas são constituídos através da autenticidade, da originalidade e qualidade estética atribuídas às obras por: marchands, corretores, leiloeiros, críticos, curadores e conservadores de museus, peritos, megacolecionadores e organizadores de bienais internacionais, que agem como detentores do oligopólio de conhecimento em artes. São esses profissionais que hierarquizam os valores artísticos e econômicos das obras, pois escolhem os artistas que devem estar representados nas galerias, nos museus, em exposições, em eventos como bienais, feiras de arte, nos acervos privados de megacolecionadores etc. Quanto mais as obras de arte se movimentam nesse circuito, mais fica atestado ou provado seu valor artístico e o talento de seus criadores.” [18]
Apesar da grande dificuldade, existem alguns artistas nacionais que alcançam maior reconhecimento e atingem maior circulação, por isto estão bem inseridos no mercado de arte, ou seja, são representados por galerias, recebem críticas em revistas e jornais especializados, estão expostos em grandes museus, e têm obras suas em coleções conhecidas, participam de bienais e de grandes feiras de arte internacionais e têm suas obras arrematadas em leilões.
São muitos os artistas que investem na sua formação, fazendo cursos e especializações e em geral disputam os poucos acessos no circuito institucional para poderem ser notados pelas galerias e curadores. Tal limitação faz com que, tenham que se dedicar a atividades paralelas, principalmente exercendo atividades de pesquisa e no magistério. As agências podem ampliar oportunidades e abrir o mercado, desde que o tradicional circuito das artes, dominadas por especialistas ligados a universidades, museus, fundações e galerias permitam e incorporem atores novos, fora da elite social econômica.
Será que existe arte ou vida fora do mercado?
A arte contemporânea, representada pelas agências, galerias e redes sociais amplificam o mercado exclusivo da arte contemporânea para valorizar mercadoria que são vendidas de forma discreta, privilegiada para uma elite que valoriza o segredo.
A escolha ética no sistema da arte contemporânea, cabe a cada artista, o tempo se encarregará de validá-la ou não, independente dos especialistas, das agencias, galerias, museus e do eventual sucesso contemporâneo.
Para além da mercadoria, a arte contemporânea é um grande espaço para a manutenção de vínculos com pessoas, como bem sinaliza um marchand carioca em entrevista a pesquisadora DANIELA STOCCO FERREIRA[19] – existe...
“uma solidão muito grande, existe uma falta de relacionamento muito grande que conversam sobre arte confere status e distingue os “conhecedores de arte”.
De
alguma forma ela ameniza a solidão das metrópoles, cria uma forma de
comunicação pelo encontro de pessoas, as quais se reúnem, em algum lugar
pré-determinado da cidade, com o intuito de vender, realizar trocas ou simplesmente conversar sobre arte,
facilitado por um repertório comum de compartilhamento.
Lamentavelmente a arte contemporânea mantém uma postura aristocrática e a maioria se deixa levar pelo mercado.
“O que está em jogo não é apenas o mercado e sim o pensamento e atitudes do artista em relação a um mundo entorpecido pelo culto ao dinheiro” [20]
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O assunto não acaba aqui, seguem referência para quem quer saber mais:
[1] www.gruenwaldt.com.br
[2] http://www.wallpaper.com/art/michael-sailstorfers-silver-cloud-installation-crashes-berlin-gallery-weekend
[3] www.levkhesin.de
[4] http://www.cosstores.com/gb/Things
[5] www.unitedtalent.com
[5]http://www.nytimes.com/2015/09/14/arts/design/joshua-roth-takes-united-talent-agency-into-the-art-world.html?_r=0
[5] http://www.wmagazine.com/story/united-talent-agency-hollywood-art
[6]https://news.artnet.com/art-world/ai-weiwei-hollywood-talent-agency-517067
[7] https://www.perrotin.com/artists/Maurizio_Cattelan/2#news
[8] http://www.julianschnabel.com/
[9] http://www.caa.com/
[10] http://www.thaonguyenphan.com/
[11] https://pt.wikipedia.org/wiki/Rem_Koolhaas
[12] http://www.tomsachs.org/
[12] http://www.thecontemporaryaustin.org/artists/tom-sachs/
[13] http://www.takashimurakami.com/
[14] http://dazibao.cc/textos/arte-contemporanea-sobre-a-implantacao-do-sistema-de-valorizacao-do-valor/
[15] http://www.nytimes.com/2015/08/20/t-magazine/shepard-fairey-on-our-hands-jacob-lewis.html
[16] Tese de Doutorado de DANIELA STOCCO FERREIRA - O MERCADO PRIMÁRIO DE ARTE CONTEMPORÂNEA NO RIO DE JANEIRO E EM SÃO PAULO -Universidade Federal do Rio de Janeiro e Université Paris - ano 2016 - pag 72.
http://objdig.ufrj.br/34/teses/834982.pdf
[17] Tese de Doutorado de DANIELA STOCCO FERREIRA - O MERCADO PRIMÁRIO DE ARTE CONTEMPORÂNEA NO RIO DE JANEIRO E EM SÃO PAULO -Universidade Federal do Rio de Janeiro e Université Paris - ano 2016 - pag 74.
http://objdig.ufrj.br/34/teses/834982.pdf
[18] Tese de Doutorado de DANIELA STOCCO FERREIRA - O MERCADO PRIMÁRIO DE ARTE CONTEMPORÂNEA NO RIO DE JANEIRO E EM SÃO PAULO -Universidade Federal do Rio de Janeiro e Université Paris - ano 2016 - pag 39.
http://objdig.ufrj.br/34/teses/834982.pdf
[19] Tese de Doutorado de DANIELA STOCCO FERREIRA - O MERCADO PRIMÁRIO DE ARTE CONTEMPORÂNEA NO RIO DE JANEIRO E EM SÃO PAULO -Universidade Federal do Rio de Janeiro e Université Paris - ano 2016 - pag 114
[20] http://adrianodeaquino.blogspot.com.br/2007/06/orgia-esttica.html
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Referências para quem conhecer outras agências internacionais
Guia das agencias de Hollyhood
http://www.hollywoodreporter.com/news/thr-guide-7-major-hollywood-799743
Outras agencias internacionais :
http://www.arndtartagency.com/about
http://emergeart.agency/philosophy/mission/
https://en.artmediaagency.com/ama/





